O modelo de Streeter e Phelps foi publicado em 1925, a partir de estudos sobre a poluição do rio Ohio, nos Estados Unidos (A study of the natural purification of the Ohio River, Public Health Bulletin 146). Ele descreve a queda e a posterior recuperação do oxigênio dissolvido a jusante de um lançamento de matéria orgânica, a chamada curva de depleção de OD. Mais de cem anos depois, continua sendo o ponto de partida mais simples para um estudo de capacidade de autodepuração, aquele que a CONAMA 357/2005 exige para elevar os limites de DBO das classes 2 e 3 (art. 10, § 1º) e a CONAMA 430/2011 aceita para reduzir a remoção mínima de 60% de DBO (art. 16, I, g) ou ultrapassar os 120 mg/L de DBO de esgoto sanitário (art. 21, I, d).
Modele a curva de depleção de OD no seu rio com a clássica calculadora Streeter-Phelps
Abrir calculadora Streeter-PhelpsO modelo junta duas cinéticas de primeira ordem: a desoxigenação, que consome a DBO remanescente L, e a reaeração, que repõe oxigênio na proporção do déficit D (a diferença entre o OD de saturação e o OD do rio).
dL/dt = -K1 x L
dD/dt = K1 x L - K2 x D
D(t) = K1 x L0 / (K2 - K1) x [exp(-K1 t) - exp(-K2 t)] + D0 x exp(-K2 t)
tc = 1 / (K2 - K1) x ln{ K2/K1 x [1 - D0 x (K2 - K1) / (K1 x L0)] }L0 é a DBO última logo após a mistura, D0 o déficit inicial e tc o tempo crítico, em que o OD é mínimo. A distância crítica é tc vezes a velocidade média. Note que L0 é DBO última, e não a DBO5,20 que o laboratório entrega; a conversão é um passo do cálculo, não um detalhe.
K1 é o coeficiente de desoxigenação medido no laboratório. No rio, a remoção de DBO costuma ser maior, porque inclui sedimentação da matéria orgânica e remoção pelo lodo de fundo; por isso se usa o coeficiente de decomposição no rio, Kd. Von Sperling (2007) traz as faixas típicas abaixo, em base e e a 20 °C, aqui como reproduzidas por Tonon (2014):
| Origem da carga | K1 (laboratório, d⁻¹) | Kd, rios rasos (d⁻¹) | Kd, rios profundos (d⁻¹) |
|---|---|---|---|
| Esgoto bruto concentrado | 0,35 a 0,45 | 0,50 a 1,00 | 0,35 a 0,50 |
| Esgoto bruto de baixa concentração | 0,30 a 0,40 | 0,40 a 0,80 | 0,30 a 0,45 |
| Efluente primário | 0,30 a 0,40 | 0,40 a 0,80 | 0,30 a 0,45 |
| Efluente secundário | 0,12 a 0,24 | 0,12 a 0,24 | 0,12 a 0,24 |
| Águas limpas | 0,08 a 0,20 | 0,08 a 0,20 | 0,08 a 0,20 |
Quando não há medição, outra referência citada no mesmo trabalho é a relação de Kd com a profundidade H, atribuída à EPA (1985) e a Thomann e Mueller (1987): Kd = 0,3 x (H / 2,5)^(-0,434) para H até 2,5 m, e Kd = 0,3 d⁻¹ acima disso.
K2 costuma pesar mais no balanço de OD do que Kd. Sem medição direta, ele é estimado por fórmulas hidráulicas, cada uma válida numa faixa de profundidade (H, em m) e velocidade (v, em m/s). As faixas abaixo são as de von Sperling (2007), também como reproduzidas por Tonon (2014), em base e e a 20 °C:
| Fórmula | K2 (d⁻¹) | Faixa aproximada |
|---|---|---|
| O'Connor e Dobbins (1958) | 3,93 v^0,5 H^-1,5 | 0,6 ≤ H < 4,0 m; 0,05 ≤ v < 0,8 m/s |
| Churchill e colaboradores (1962) | 5,0 v^0,97 H^-1,67 | 0,6 ≤ H < 4,0 m; 0,8 ≤ v < 1,5 m/s |
| Owens e colaboradores | 5,3 v^0,67 H^-1,85 | 0,1 ≤ H < 0,6 m; 0,05 ≤ v < 1,5 m/s |
A regra prática: escolha a fórmula pela faixa em que o trecho está, e não pela que dá o resultado mais confortável. O exemplo a seguir mostra por quê.
Os coeficientes são tabelados a 20 °C e corrigidos para a temperatura da água por K(T) = K(20) x θ^(T - 20). Os valores usuais, atribuídos à EPA (1987), são θ = 1,047 para Kd e θ = 1,024 para K2. A 25 °C, Kd cresce cerca de 26% e K2 cerca de 13%: com o calor, o consumo de oxigênio acelera mais do que a reaeração, e a saturação de OD ainda cai.
Um rio com 0,5 m³/s, OD de 7,0 mg/L, DBO5,20 de 2 mg/L e 25 °C recebe 0,08 m³/s de efluente com DBO5,20 de 80 mg/L, OD de 1,0 mg/L e 27 °C. O trecho a jusante tem profundidade média de 1,8 m e velocidade de 0,2 m/s. O rio é classe 2 (OD mínimo de 5 mg/L).
Conclusão: o lançamento não atende à classe 2 nessas condições. Agora veja o que acontece com fórmulas fora da faixa. Com Churchill e colaboradores (feita para velocidades a partir de 0,8 m/s), K2 cai para 0,393 d⁻¹ e o OD mínimo para 1,76 mg/L, a cerca de 33,5 km. Com Owens e colaboradores (feita para rios rasos), K2 = 0,608 d⁻¹ e o OD mínimo fica em 3,09 mg/L. A mesma carga, no mesmo rio, gera conclusões bem diferentes só pela escolha de K2.
O modelo clássico considera só a DBO carbonácea e a reaeração. Ficam de fora a nitrificação (que também consome oxigênio), a fotossíntese e a respiração de algas e perifíton, a demanda de oxigênio do sedimento (SOD) e o ciclo diário de OD. Também supõe trecho homogêneo, sem novos lançamentos ou tributários. Quando o rio tem nutrientes em excesso, vários lançamentos ou forte variação de OD entre o dia e a noite, um modelo com mais processos, como o QUAL2Kw, passa a ser o caminho mais seguro.
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